Os quatro motivos
- Dói igual. O dente de leite tem esmalte e dentina mais finos e uma polpa proporcionalmente maior. A cárie atravessa esse caminho mais rápido do que no dente permanente, então o intervalo entre "manchinha" e "dor de nervo" é bem menor.
- A infecção não fica no dente. Uma lesão que atinge a raiz do dente de leite se instala em cima do germe do dente permanente, que está se formando logo abaixo. Isso pode deixar mancha ou defeito de esmalte no dente definitivo, ou alterar o momento em que ele nasce.
- O dente de leite guarda espaço. Perdido cedo demais, os vizinhos escorregam e fecham o vão reservado para o permanente. O resultado aparece anos depois como falta de espaço, dente nascendo torto ou por fora da arcada, e um tratamento ortodôntico mais longo.
- Dente doendo muda a rotina. Criança com dor mastiga de um lado só, come menos, dorme mal e falta na escola. Isso costuma ser tratado como fase, e às vezes é um molar cariado.
Vale corrigir uma ideia comum: cárie não é "dente fraco" nem herança inevitável. É uma doença que depende de bactéria, açúcar, frequência e higiene. E a frequência costuma pesar mais que a quantidade: um doce depois do almoço faz menos estrago que beliscar biscoito seis vezes ao dia.
O primeiro sinal quase nunca é buraco
É uma mancha branca opaca e fosca, junto da gengiva, principalmente nos dentes de cima da frente, mais visível quando o dente está seco. Ela não parece problema, parece sujeira ou marca de pasta.
Nesse estágio a lesão ainda pode ser revertida sem broca, com ajuste de higiene, mudança na frequência de açúcar e aplicação profissional de flúor. Depois que vira cavidade, não tem volta espontânea: o que se perdeu de estrutura só se repõe com restauração.
Uma vez por semana, com a criança deitada com a cabeça no seu colo e boa luz, levante o lábio de cima e olhe a faixa dos dentes junto da gengiva. É a região onde a cárie precoce começa e a que menos aparece quando a criança sorri.
Cárie precoce da infância: a do leite noturno
Mamadeira com leite adoçado, achocolatado ou suco durante a noite, depois que os dentes já nasceram, é o cenário clássico. O líquido fica parado em volta dos dentes de cima da frente por horas, com a produção de saliva reduzida pelo sono, que é justamente a defesa natural da boca.
O mesmo vale para a mamada noturna livre depois que os dentes nasceram, quando não há nenhuma limpeza depois. Não se trata de suspender a amamentação: trata-se de limpar os dentes depois da última mamada e não deixar o açúcar em contato a noite inteira.
Higiene por faixa etária
Antes do primeiro dente
Não há dente para escovar, e limpar a gengiva não é obrigatório. Se quiser passar uma gaze ou fralda limpa e úmida depois da última mamada, o ganho é de rotina: a criança se acostuma com a mão do adulto na boca, e isso facilita muito o dia em que a escova entra.
Do primeiro dente até por volta dos 3 anos
- Escova de cabeça pequena e cerdas macias, duas vezes ao dia, com atenção especial à da noite.
- Pasta com flúor na quantidade de um grão de arroz cru, espalhada nas cerdas. Quem dosa é o adulto, e o tubo fica fora do alcance.
- Quem escova é o adulto, inteiramente. A criança pode segurar a escova para brincar, mas a limpeza é sua.
- Depois da escovação da noite, só água. Nada de mamadeira com leite, achocolatado ou suco na cama.
- Fio dental a partir do momento em que dois dentes se tocam, porque ali a cerda não entra.
Dos 3 aos 6 anos
- A quantidade de pasta passa para o tamanho de um grão de ervilha.
- Ensine a cuspir e a não enxaguar com muita água depois, para o flúor seguir agindo na superfície do dente.
- A criança pode escovar primeiro, mas o adulto sempre repassa. É a fase de dar autonomia sem entregar a responsabilidade.
Dos 6 anos em diante
- A coordenação para escovar bem sozinha costuma chegar por volta dos 7 aos 8 anos. Um bom indicador caseiro: enquanto a criança não amarra o próprio sapato, ela também não escova bem sozinha.
- O adulto passa de executor a conferente, e a escovação da noite continua supervisionada.
- Por volta dos 6 anos nascem os primeiros molares permanentes, atrás dos de leite, sem que nada caia antes. Muita gente não percebe que aquele dente já é definitivo e deixa de escovar direito ali, que é justamente a região que mais cria cárie na infância.
Selante e flúor: o que cada um faz
São duas medidas preventivas diferentes, que muita gente confunde.
O selante é uma resina fluida que preenche os sulcos profundos da face de mastigação dos molares. Esses sulcos são estreitos demais para a cerda da escova entrar, e é onde a maior parte da cárie infantil começa. A aplicação é rápida, não exige anestesia e não desgasta o dente. A indicação principal é nos molares permanentes recém-nascidos, por volta dos 6 anos e depois por volta dos 12. Selante precisa de conferência nos retornos, porque pode desgastar ou soltar.
A aplicação profissional de flúor, em verniz ou gel, age na superfície do esmalte: aumenta a resistência ao ácido e ajuda a remineralizar mancha branca inicial, antes que ela vire cavidade. A frequência é definida pelo risco de cárie da criança. O flúor da aplicação no consultório é diferente, em concentração e finalidade, do flúor da pasta do dia a dia.
Nenhum dos dois é vacina contra cárie: selante protege uma região específica, flúor fortalece o esmalte, e nenhum dos dois compensa escovação insuficiente ou açúcar em alta frequência.
A bactéria da cárie não nasce com a criança: ela chega, e muitas vezes vem da própria família. Evite provar a comida com a colher dela, soprar a comida na boca e limpar a chupeta que caiu usando a sua boca. Cuidar dos seus dentes também protege os dele.
Conteúdo informativo, revisto pela responsável técnica Dra. Mariana Adelar (CRO-GO 16481). Não substitui a avaliação presencial: cada criança tem uma boca, uma idade e um histórico.